No início do século XVI, um jovem de vinte e seis anos foi entronizado sultão em um pequeno reino localizado entre a Pérsia e o Turquestão, próximo ao mar Cáspio, onde ficaria por quase quatro décadas no poder. Seu primeiro ato foi mandar libertar cerca de duzentas pessoas encarceradas por ordem de seu pai. Era pequeno e magro, mas tinha uma fragilidade enganadora, pois seu rosto exprimia um rigor que nunca o abandonou, provavelmente herança do temperamento da mãe, que descendia do Khan dos tártaros da Criméia, tendo o sangue de Gengis Kan em suas veias e do convívio com o pai, conhecido como Shalim, o severo. Foi educado na estrita observância da lei muçulmana, segundo a qual a primeira obrigação de um soberano, é combater os infiéis. Sua doutrina foi fundada no século VII da era cristã, na Arábia, por Maomé, como uma religião monoteísta que enfatizava a adesão rigorosa a certas práticas religiosas baseada na escritura sagrada, o Alcorão, que converteu-se em uma força unificadora de diversos povos. O jovem sultão era muito religioso e orava cinco vezes por dia na mesquita particular do palácio, menos às sextas feiras, quando era cercado de pompa e seguia até Basrai onde discutia sobre teologia e assistia algumas disputas com cavalos. Apesar de jovem aprendeu tudo que a tradição recomendava, ourivesaria e história, religião e esgrima, governo e equitação, ciência e astrologia, poesia e arco e flecha. Falava fluentemente, o turco, o persa e o árabe. Além de conversar com dignitários de algumas terras conquistadas por seu pai, nos dialetos deles. Estes vizirados foram criados no período anterior e possibilitou uma certa descentralização do poder concentrado no sultão, que passou a contar com emissários e delegados, que agiam como seu representante em terras distantes. Rajhastan era culto sem dúvida, até mais culto que os reis cristãos do ocidente, além de sensível à beleza das artes, mas tinha, porém, uma personalidade inescrutável, que não se dava a conhecer. Fazia questão de produzir relatos impessoais das campanhas que comandava, cavalgava sempre em uma montaria negra selada em ouro e seu diário era sempre escrito na terceira pessoa. O luxo de que fazia rodear os desfiles militares de seu pequeno país abismava os cristãos. Vestido de cetim branco com botões que eram na realidade grandes pérolas, trazia no turbante uma rosa de ouro e um enorme rubi. Da sua orelha direita pendia uma pérola em forma de pêra. Ele sempre recebia muitos presentes e um dia um missionário muçulmano chamado Yasin, que preconizava extrema disciplina, baseada na oração e na formação religiosa. Uma doutrina que após um período de lutas, ganhou as tribos do oeste do Saara. Eles se consideravam defensores da ortodoxia islâmica e chegaram a conquistar o norte da África e Andaluzia (al-Andalus, como era chamada a Espanha muçulmana). O movimento desses grupos forneceu as bases para a criação do reino do Marrocos, com a fundação de Marrakech. Este missionário era um velho amigo do pai de Rajhastan e resolveu lhe dar um presente especial, um pergaminho muito antigo quase da época do profeta Jesus, achando um presente interessante para instigar a curiosidade do jovem sultão e realmente conseguiu, pois logo deixou Rajhastan extremamente curioso quanto ao seu conteúdo, já que não conseguia identificar ao menos a que língua pertenciam aqueles hieróglifos. Perguntou o significava a Yasin, que respondeu não saber, pois aqueles símbolos eram muito antigos e nunca teve tempo para pesquisa-los mais detalhadamente. Talvez Yasin soubesse a íntegra do conteúdo do pergaminho, mas não queria tirar o mérito das descobertas de Rajhastan, que naquele dia mesmo consultou alguns intelectuais de seu reino, que após muitas pesquisas, descobriram que o pergaminho fora escrito em um dialeto indiano muito raro, usado pelos peregrinos de Gorá e certamente poucas pessoas poderiam decifra-lo. Não podemos afirmar com certeza alteza, disse um deles um tanto hesitante, mas talvez alguém que viva próximo a Dihu ou Gorá na Índia, pois naquela região se falava mais de cem dialetos. Rajhastam ainda muito curioso e empolgado, ordenou ao seu conselheiro Rhial Sabin que chamasse Khassin e poucos minutos depois Khassin que era o chefe de sua guarda pessoal já o reverenciava. Rajhastan então disse lhe: tenho uma missão para você amigo Khassin, preciso que siga para a região de Dihu na Índia e consiga alguém que possa interpretar a linguagem escrita neste pergaminho, pois sua simbologia se parece muito com os sinais de um antigo dialeto usado pelos peregrinos de Gorá. Partirei agora disse Khassin e partiu naquela noite mesmo acompanhado por um grupo de soldados, pois sabia que teria que passar próximo ao império Mongol. Este império foi fundado por Gengis Khan que penetrou no território muçulmano, depois de haver unificado a Mongólia e iniciado a conquista da China. Eles derrubaram os príncipes de alguns reinos islâmicos, contudo também toleravam diversas religiões, como o paganismo, o budismo, o cristianismo e o nestorianismo, o que lhes permitiu fazer alianças para combater o último reduto do Islã no Oriente: os mamelucos do Egito, mas foram derrotados por Baibars que tornou-se sultão do reino da Síria e do Egito. Os mongóis ficaram ainda com parte da Índia e Anatólia, mas seus descendentes não conseguiram manter o império, que ficou reduzido a parte oriental do Irã.. Khassin sabia que poderia ter problemas, se os encontrasse, pois eram imprevisíveis. Rajhastan recebeu ainda outros presentes no dia de sua entronização, dentre os quais, cerca de cinco mulheres para o seu harém, enviado pelo califa Harun al-Rashid, da dinastia abássida de Bagdá e uma das jovens, chamada Roxelan, de origem rutena, povo dos confins do império entre a Hungria e a Moldávia. Como uma lenda das mil e uma noites, encantou o jovem sultão, que se apaixonou pelos seus olhos de antílope. Roxelan era tão bonita, quanto ambiciosa e percebendo o interesse do sultão, não perdeu tempo em jogar todo o seu charme em cima dele e Rajhastan logo se rendeu a sua beleza, levando-a até sua residência oficial no palácio de Yihad. Uma verdadeira cidade dentro de seu reino. Naquele momento, tudo era motivo de alegria para o sultão, que raramente sorria e quando em seus aposentos, sua primeira atitude foi beija-la calorosamente ao lado de uma lareira que crepitava em seu quarto. Dividiram um mesmo copo de vinho e então pediu para que todas as criadas saíssem do quarto. Nisto Roxelan lhe disse que estava ali para servi-lo e se sentia feliz por isto. O fascínio do jovem sultão por Roxelan era evidente , e logo ela se tornaria a sua preferida. ....